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Jean. Corpo em Aracaju-SE, alma em Vitória da Conquista-BA. Estudante do primeiro ano de Medicina, dos pensamentos e da vida, quando sobra tempo. Do alto dos seus 22 anos, no topo do conflito de idéias, das brigas internas e das dúvidas. E quanto mais conflita, mais briga e mais duvida, mais encontra tranqüilidade. Afinal, o que é concreto por aqui?

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Textos. O que vier, como vier e do jeito que vier. Na telha é a expressão. A idéia ante a forma e a técnica. Um semi-fluxo de consciência. Sem leituras, delongas ou pompas. Apenas alguns enfeites, pra embonitar a essência. A essência do que vier.

Eu não necessariamente concordo com tudo o que eu escrevo. Não se trata obrigatoriamente das coisas em que eu acredito. Simplesmente sou acometido pelo pensamento e, se o achar interessante, decido por escrevê-lo.




Sábado, Outubro 17, 2009 [8:30 PMh]

Breve um novo blog. Aguardem





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Domingo, Outubro 11, 2009 [11:12 PMh]

Sobre os conselhos
escrito em 06 de julho de 2005



Estava praticamente no fundo do poço. Estava desiludido. E uma vida sem ilusões é uma vida concreta demais para o que se pode suportar. Estava desesperançoso. E se a esperança é realmente a última que morre, ele deveria ter morrido há uns dois minutos atrás. Estava sem sonhos, sem meta, sem um ponto para fixar o olhar. Estava... estava... não estava. Não era. Não nada.

"A solução pra tudo na vida
é erguer a cabeça
e andar com ela sempre erguida."

Foi o que lhe disseram.

Era o que ele precisava para tentar fugir do fundo do poço. Um conselho. Qualquer que fosse. E foi nesses três versos magros que ele buscou alguma gota de força.

Ergueu a cabeça. Procurou um ponto. Encontrou-o. Um ponto qualquer no horizonte. E começou a andar. Sempre em frente. Com a cabeça erguida. Com o olhar fixado nesse ponto.

- Cabeça erguida! - pensou, o mais alto que podia.

Havia movimento por onde ele passava. Havia, para o mundo. Para ele só havia ele e o ponto. E foi nesse ponto que ele se concentrou. Cabeça erguida. Concentração. Ilusões. Esperança. Sonhos, metas... um ponto. As suas forças começaram a renascer. Agora estava. Era. Sim tudo.

Com a cabeça erguida via o céu. O Sol. Pássaros. Nuvens. Com a cabeça erguida ele via o ponto.

Ele só não viu um buraco que estava na sua frente. Caiu. E foi parar lá no fundo. Era um poço.

Abriu os olhos e viu o ponto pela última vez.

Pobre coitado, era um ponto-final.

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'Oi Jean, bom texto. Bom arremate. É assim mesmo q se fz crônicas, elencando os fatos de forma criativa.'
(Tiago)

'mas caiu no buraco de cabeça erguida!'
(Iris)

'Apesar de ele ter caído no poço, será que não valeu a pena por ele ter visto, o sol, as nuvens, os passáros? Não é melhor esse ponto final do que constantes reticências sem nenhuma visão que recompensadora ??'
(Aninha)

'final é surpreendente, diga-se de passagem, e o jogo de palavras (ponto final) muito bem bolado. Gostei mesmo!'
(Paloma)






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Terça-feira, Outubro 06, 2009 [1:58 AMh]

Eu sou brasileiro



Eu sou brasileiro. O que significa que o local onde minha mãe se encontrava quando entrou em processo de parto, após 9 meses de desenvolvimento fetal depois de ter o óvulo fecundado por um dos espermatozóides produzidos nas células de sertoli no testículo do meu pai, pertence a uma porção de terra chamada Brasil. Porção de terra essa cujo nome Brasil foi definido - depois de algumas idéias anteriores não bem sucedidas - pelos portugueses que aqui chegaram em 1500. 1500 é um ano, como todos os outros anos, que faz parte de um calendário com base num cara que multiplicava pães, andava sobre as águas e não era brasileiro. Frisando que quando os portugues aqui chegaram, em 1500, índios aqui já estavam. Não, eles não opinaram no nome. Nem ficaram com a honra da descoberta.

Eu sou brasileiro. O que significa que o primeiro raio de luz que atingiu a minha retina, estimulando o II par de nervos cranianos, os ópticos, teria atingido o chão - e possivelmente seria parte absorvido, parte refletido, de acordo com a cor do chão - pertencente a tal porção de terra chamada Brasil, caso eu não estivesse com a cabeça pra fora entre o raio de luz e o chão. O raio de luz, possivelmente foi proveniente do Sol. Mas aí teimaram a dizer que a luz quem deu foi minha mãe.

Eu sou, sim, brasileiro. O que significa que o primeiro - e único - tapa que tomei na bunda, possivelmente na região do músculo glúteo máximo, causando uma sensação de dor trazida por impulsos exteroceptivos, foi dado por um médico que se encontrava, naquele exato momento, na porção de terra chamada Brasil. Tal sensação de dor desencadeou o reflexo do choro, o que faz com que Brasil também seja a porção de terra onde caiu a minha primeira gota de lágrima. Por isso eu posso dizer, então, que sou brasileiro.

Eu sou brasileiro. Logo sou sulamericano, terráqueo, via lácteo e... sei lá, universal? América do Sul é uma porção de terra maior, que inclui porções de terra menores. Terra é uma graaande porção de água, com pequenas porções de terra. O universo é uma grande porção de qualquer coisa esquisita que veio Deus sabe de onde. As porções de terra das quais eu falo, não são definidas naturalmente, como as porções do universo. São definidas sim pelo homem. Homem esse que ignorou os índios quando chegou nessa porção de terra onde a gente tá. Por sinal, é bom destacar que índios também são homens. E as porções são definidas com base em... com base em nada. Isso, é sem critério mesmo. Fulano pra cá, Cicliano pra lá. Foge de guerra, procura ouro, tira índio, põe escravo, fecunda óvulos, nomeia, bate na bunda, chora, chora desgraçado, procria, amplia, entope e vira uma nação. O Brasil é uma nação.

É, amigos, eu sou brasileiro. O que poderia significar que eu não desisto nunca, caso a porção de terra onde eu estou não diferenciasse das outras porções apenas por questões ambientais, geográficas e.. oh!.. políticas; caso os óvulos e espermatozóides provenientes dos humanos habitantes das outras porções de terra não fossem semelhantes e originassem os mesmos tipo de zigotos, que passam pelo mesmo processo de clivagem, blastulação, gastrulação e todo o resto, nascem, choram, crescem, animam, desanimam, conquistam e desistem; e caso 'nunca' não fosse uma palavra sem definição e as palavras não fossem inventadas e tortamente definidas pelos.. argh.. homens.

O que eu quero dizer, meus caros, é que sou sim brasileiro. Não nego. Mas como qualquer brasileiro - e também como os não-brasileiros, que são homens, e isso inclui os índios e os médicos - desisto sim, sempre quando me convém.





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Sábado, Outubro 03, 2009 [7:15 PMh]



Inside


Eu tenho o costume de processar as coisas internamente. Na verdade, todo mundo tem. A diferença é que em geral as pessoas fazem esse processo externando as dúvidas, as conclusões, as angústias e todo o resto. Chamam isso de expor os sentimentos. Eu martelo, mastigo e engulo pra mim. Simplesmente porque em geral não tenho necessidade alguma de expor nada.

O que acontece é que as pessoas expõem muitas vezes por expor mesmo. Assim, sem finalidade, ao meu ver. Falam em dividir, compartilhar, tal e tal. Mas pra quê?

90% dos meus problemas, exatamente por serem MEUS problemas, eu resolvo sozinho. Quem mais saberia de mim d que eu mesmo? Eu exponho as coisas basicamente em dois momentos: quando posso ajudar alguém com isso ou quando percebo que alguém tem inteligência o suficiente pra entender algum aspecto meu que eu não entendo.

A grande verdade é que quem diz tudo o que pensa, diz tudo justamente por não pensar.





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Terça-feira, Setembro 29, 2009 [6:55 PMh]



Crônica do brilho dissimulado
escrito em 21 de junho de 2005


- Parabéns! É uma menina!

Mal sabia o doutor que, para aquele casal de classe média alta, que há muito vinha tentando ter uma criança, aquilo era mais que uma menina. Era um prêmio! E um prêmio muito bonito, por sinal. Já no berçário era possível notar que a menina-prêmio se destacava entre as outras crianças. Ela já sabia sorrir. Era um sorriso mais largo do que um sorrisinho com o canto da boca e menos extravagante do que uma gargalhada. Era um sorriso na medida certa. Até os pais de outras crianças, vez ou outra, lançavam elogios para ela:

- Olha só, enfermeira! Meu filho não é lindo? Não é a cara do pai? E... e aquela menininha ali? Como é linda também! Já tem nome?

Já tinha. Melissa.

Melissa, a menina-prêmio, foi crescendo e acabou sendo promovida pelos pais a menina-benção. Sua mãe não cansava mesmo de repetir: "Você é uma benção de Deus!". Não era por menos. Nunca deu trabalho. Passava o dia quase todo quieta, brincando com aquele saquinho de bolinhas de gude coloridas. Adorava as cores. Chorava apenas quando era necessário. Não mexia em nada que não era seu. Desde os quatro anos, quando entrou pra escolinha, tirava as melhores notas. Era inteligente, educada, tranquila. Era linda. Muito. Branquinha como a neve. Cabelos castanhos bem escuros. Um nariz empinadinho que parecia ter sido projetado pelo melhor dos engenheiros. E, o sorriso? O sorriso era o mesmo da época de berçário. E sabia sorrir na hora certa. "É coisa de Deus!" - se orgulhava a sua mãe.

E foi, também, quando completou quatro anos que, não obstante todas as suas qualidades, as pessoas começaram a perceber algo novo. Os seus olhinhos. Como brilhavam! E não era um brilho de lágrima, nem de reflexo do Sol. Não. Era um brilho natural. Um brilho ao acaso. Um brilho que parecia ter escolhido os olhos perfeitos para se instalar. "É coisa de Deus!". E realmente parecia algo de origem divina, era muito bonito aquele brilho. Fazia ficar mais belo ainda aqueles olhinhos às vezes azuis, às vezes verdes, que eram como duas safiras!

- Safiras não! Bolinhas de gude.

Não gostava que seus olhos fossem comparados a safiras ou outras pedras preciosas. Achava "bolinhas de gude" tão mais sutil. Mas as comparações dos seus olhos brilhantes com preciosidades eram inevitáveis. Com o tempo, então, desistiu de explicar que seus olhos eram parecidos com bolinhas de gude, e sempre que recebia os elogios, inclinava um pouco o rosto para baixo e dava aquele sorriso, que só ela tinha. "Ah, muito obrigada".

O tempo correu, e a menina Melissa se transformou na mulher Melissa. Antes que o leitor se equivoque, ela não havia nem chegado aos seus dezoito anos ainda. Tinha quinze, na verdade. Mas, amadureceu de tal forma que aos quinze anos já tinha os seus pensamentos formados, sua ideologia de vida. Era um poço de valores e virtudes. Mesmo tão linda, tão bela, com os olhinhos tão brilhantes, tão quase-perfeita, era humilde e alheia à beleza exterior das coisas. Orgulho da família. Não, orgulho de todos! E os seus olhos continuavam com aquele brilho. Fascinante!

E, ainda aos quinze anos, foi esse brilho que chamou a atenção de uma espécie de "Caça-talentos" de uma grife famosa de roupa. "Esse brilho nos olhos é capaz de valorizar qualquer modelito. É fantástico!". Bom, corpo para ser modelo ela já tinha. Mas nunca havia pensado em tal. Ela gostava de cores. E aquelas roupas todas coloridas, bem desenhadas... Por que não? E ela aceitou o convite para os testes. Passou em todos. "Orgulho da mamãe!".

Por onde desfilava, a menina-mulher Melissa fazia sucesso. Mas para ela pouco importava o sucesso. Ela gostava mesmo era daquelas cores. Gostava de estar entre as cores. Gostava de ver tudo aquilo. E quando via, seus olhos pareciam brilhar ainda mais. Ah! Aquele brilho! Inesquecível para quem presenciava.

Seria sempre inesquecível.

Quando já havia feito dezessete anos, ao voltar de uma tarde na praia, Melissa percebeu algo estranho. Não estava conseguindo enxergar, com exatidão, as cores, que ela tanto gostava de ver. Sua visão estava perturbada por algumas manchas brancas. Estranho. "Não é nada, você ficou muito tempo no Sol" - a mãe acalmava. Ela não conseguia enxergar defeitos na filha, e nem queria. Melissa era uma benção. Era uma coisa de Deus. Era o seu orgulho. O orgulho de todos. "Amanhã isso passa, minha filha". Mas, não passou.

O que antes eram olhos que brilhavam, se transformou em brilhos que olhavam. O brilho começou a tomar conta dos olhos. Melissa fez uma bateria de exames para que ela pudesse ver qual era o problema. Para que os outros pudessem ver, aliás. Ela já não conseguia ver quase nada, só as manchas brancas. A mãe estava muito preocupada. O pai também. Toda a família. Eu acho que todo o mundo, de alguma forma, se preocupava com Melissa, naquele momento. Ela era realmente muito querida.

E o problema foi, tardiamente, diagnosticado: Melissa tinha câncer de retina.

O brilho era um sintoma.

Os olhinhos de bolinhas de gude, então, se fecharam.

Morreu aos dezoito anos.

Linda, Melissa.

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'morreu brilhando, a Melissa.'
(Iris)

'Que bunitinhooooo!!! Vc está no what's up.. prepare-se para naõ ter tempo NENHUM para responder comentários.. rsrsrs
parabéns!!'
(Ju²)

'JEAN, SEU MALA! De tanto dizer acabou que deu certo: ce tá no WHATS UP, PESSOA!'
(Paloma)

'Pô Bicho, você se supera a cada dia. Belo texto. História triste, é verdade, mas serve para exemplificar que nem tudo é tão lindo quanto parece ser.'
(Raphael)

'Nossa! Lindo mesmo! Muito, muito lindo! Amei! Quando eu crescer tenho 13 anos) vou ser escritora. Você é escritor?'
(Milla Lovegood)

'Muito bom o seu texto, muito bom mesmo! De vez em quando as melhores coisas da vida são venenos disfarçados.'
(Mário)

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Esse eu escrevi quando vi na televisão que um dos sintomas para câncer de retina era o brilho excessivo nos olhos. Achei interessante e parei pra pensar como Deus pode ser um cara irônico. Não gostei muito, na verdade, mas tô postando porque foi o texto que me fez ir como destaque na gloriosa sessão "What's up" do Blogger.com.br.











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Sábado, Setembro 26, 2009 [4:33 PMh]

É bom às vezes ver as coisas de um ângulo diferente, por mais que pareça um ângulo pessimista, negativo e até meio bizarro. Pouca gente entenderá o que eu quiz dizer com o texto, por se tratar de reflexões extremamente complexas e difíceis, pelo menos pra mim, de serem externadas. Na verdade, duvido que alguém leia até o final. Mas enfim, eu acho divertido ver as coisas de diferentes modos.

OBS: no final de cada texto eu colocarei trechos dos comentários mais legais. Por 'legal' entenda o que EU achar legal :)


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Diagnóstico jurídico: amor


Ando meio cansado de ver o amor, o namoro, o casamento serem analisados sempre do ponto de vista poético, romântico ou mesmo piegas. Não que eu não me sinta contemplado com esse tipo de análise. É sempre bom para a alma amar e ser amado, e abrir as janelas para todos esses pontos de vista. Mas, ao meu ver, o amor vai além e caminha, sim, por cavernas obscuras, úmidas, cheias de estalactites.

Começo o meu texto defendendo a tese de que o amor é uma doença. Não do ponto de vista fisiológico, nem mesmo psicológico. O amor é uma doença própria, com características diferentes de qualquer patologia clínica. Nem mesmo deveria ser considerado uma doença, único que é, mas por falta de uma categoria adequada para classificá-lo e, como eu disse, por estar cansado das categorias banais em que ele é enquadrado, o enquadro aqui como doença. E uma doença sem cura objetiva.

Para mim não há dúvidas. Os sintomas são claros. Você sofre por falta de concentração, taquicardias, canaliza seu pensamento totalmente na pessoa amada, age de forma irracional, sofre pela não correspondência, começa a acreditar em coisas absurdas, tem crises de choro, abandona os amigos, e passa por outros inúmeros distúrbios mentais. Os sintomas podem variar, existir em maior ou menor número e grau. Mas, repito, é uma doença. Das brabas.

Porém, dentre todos os sintomas, há o pior deles. Aquele que aparece no auge do amor e reflete a natureza do homem em geral. Esse sintoma surge como um inchaço, uma inflamação, uma proliferação desordenada das células da essência humana: o egoísmo.

Oh, sim. O egoísmo, meus caros. Amar e ser egoísta tem sido uma tremenda redundância. Não ande com seus amigos. Não gosto de Fulano, não fale com ele. Não ande mais abraçado com Ciclano. Não vá a casa de Beltrano, não pega bem. Por que você olhou para aquela sirigaita? Mantenha os olhos em mim. Me mande mensagens, flores, bombons, mas, lembre-se, apenas para mim. Pense em mim, chore por mim, liga pra mim, não, não liga pra ele.

E, não bastasse, ainda existe a oficialização de todo esse egoísmo. Aquilo que encerra as relações humanas. Aquilo que limita, prende e fecha. Eu estou dizendo dos contratos de relacionamento: o namoro e o casamento. O casamento já é recheado por visões pessimistas e negativas e atua como alvo fácil de piadinhas ofensivas. E até pelo fato de a minha idade ainda não ter me permitido pensar nele, me limitarei a tratar sobre o tal namoro.



O que estraga o namoro é o próprio namoro. Explico. O que estraga o namoro - no sentido do prazer que existe quando duas pessoas se relacionam espiritualmente e sexualmente - é o próprio namoro - no sentido do contrato que se é assinado mentalmente para se manter a estrutura tradicional, antiquada e regrada do relacionamento entre um homem e uma mulher.

Quando se aceita namorar alguém, você aceita as regras do jogo. Todos os artigos, parágrafos e incisos do tal contrato. É colocada uma roupa bonita, com laços e fitas, no egoísmo, para se disfarçar isso. O começo, todos sabem, é sempre lindo. Ah, como é bom amar e ser amado, e ter isso oficializado, e poder mostrar pra todo mundo que eu sou amado, ah, como isso infla o ego pessoal, como é bom. Então, por que sempre acaba no final? Por que não dura para sempre?

Simples, chega o momento em que o namoro toma conta do namoro. O contrato toma conta do relacionamento. É algo que fere a alma, no sentido de privar o ser humano do mais alto grau de liberdade a que ele aspira. Todas as satisfações, os ciúmes, as explicações, as contradições, as diferenças, a impaciência. Chega um momento em que, por mais que você pudesse sentir um prazer sincero e real por estar com a pessoa, o fato de você carregar um contrato nas costas incomoda grandemente. Se você gosta de comer pudim, deixará de gostar no dia em que te obrigarem a comer pudim, e então começará a querer comer pavê. É por isso que as pessoas traem. O ser humano tem uma necessidade intrínseca de liberdade.

Então, se o amor é uma doença, o egoísmo é um sintoma, o namoro é um contrato que limita o relacionamento humano, então que se foda tudo isso e vamos todos andar nús, nos multirelacionando com todas as pessoas e ninguém é mais de ninguém?

Não. Por favor, casais apaixonados, não me joguem pedras.

A defesa não é que voltemos aos tempos da pré-história. A sociedade não é de todo ruim e pode ser seguida em alguns aspectos. Não defendo a poligamia. Não defendo a extinção do namoro. Por isso fiz questão de usar, durante o texto, duas accepções para a palavra namoro.

A princípio, sou apenas a favor de uma revisão na legislação do amor. Uma amenização das regras do contrato do namoro. Que você se relacione amorosa e sexualmente apenas com uma pessoa e que possa ter isso de volta. Mas que isso seja por total vontade mútua. Que isso seja de uma forma madura. Que não haja tantas regras e acordos tentando regularizar o que é da alçada do espírito, e não do homem.

Na verdade, todo esse texto é uma grande revolta não contra o amor nem contra o namoro em si, mas sim contra tudo que, ao meu ver, os atrapalha.

Que se possa fazer poesias, músicas, livros, declarações, presentes, afagos e besteiras. Amar e ser amado. Que sejamos, sim, doentes, mas que possamos, por favor, morrer em paz.







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Quarta-feira, Setembro 23, 2009 [11:19 PMh]

Considerando que é legal ter um blog sempre atualizado, que minha vida não permite criar mais de um texto por semana, que eu sou nostálgico por natureza e adoro resgatar textos meus antigos, de 4, até 5 anos atrás, vou começar a postar no meio da semana aqui textos meus de blogs antigos, e no fim de semana crio textos novos. Lá vai o primeiro:

Mundo Minguante (11 de junho de 2005)


Eu sempre sonho em, um dia, conhecer o mundo suficientemente bem para poder tomar sempre as decisões mais sensatas e, então, deixar de ser tão indeciso. Eu deveria acreditar nos meus sonhos. Como disse Renato Russo: "Quem acredita sempre alcança". Mas meus sonhos não são confiáveis e o Renato Russo também mentia. Quando eu era pequeno eu sempre sonhava em, um dia, subir em uma escada gigante para consertar a lua com um punhado de massa de modelar, quando ela estivesse quebrada. E hoje a lua ainda está quebrada. E eu continuo indeciso.

O ser humano é utópico do início ao fim da vida. E as utopias vão se acumulando cada vez mais. Mas alguns seres humanos acumulam utopias de forma bem mais rápida que outros. Alguns seres humanos sonham em ter o computador do ano, com uma banda larga bem fodona, um game muito louco, com um som do caralho, pra ficar na boa, descansando no quarto. Outros, sonham em ter um quarto pra descansar. O mundo seria mais feliz com uma lua sempre inteira e alguns quartos a mais para as pessoas descansarem. Tem gente que tem escada e um punhado de massa de modelar, cimento e tijolos, e não faz nada. Não conserta a lua e nem constrói quartos.



Domingo é dia dos namorados. Se hoje eu tivesse uma namorada, eu acho que não daria uma calcinha fofa pra ela. Calcinhas fofas, depois de dois anos, não servem mais. Não daria um perfume também. Mulheres não gostam de ganhar perfume no dia dos namorados. Além do mais, dizem por aí que, quando o perfume acaba, o namoro acaba junto. Mentira pura, diga-se de passagem. O meu perfume não acabou até hoje! Bom, eu acho que usaria mais do meu romantismo para escolher o presente. Sim, eu acho que eu daria uma meia. É. Uma meia com coraçõezinhos e luazinhas, inteiros ou não. No final, coração e lua sempre acabam quebrados mesmo.

Já se eu tivesse mesmo uma namorada e pudesse ganhar QUALQUER presente que eu quisesse pedir, eu... ficaria indeciso, né? Eu até poderia pedir uma cueca fofa ou um perfume. Uma meia, sei lá. Poderia pedir também para ganhar a capacidade de conhecer o mundo suficientemente bem para poder sempre tomar as decisões mais sensatas e, então, deixar de ser tão indeciso. Mas, mesmo assim, eu ainda preferiria uma escada gigante com um punhado de massa de modelar. Além de cimento e tijolos.

O ser humano deixa de ser humano mas não deixa de ser utópico.

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'Você era bem foda pra escrever. Continua sendo, mas vc era e era novo [agora vc é um velho cacarento]'
Paloma

'Ó! Já disse que é um dos meus preferidos (por motivos óbvios e contidos também), mas não custa repetir.'
Nati







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Domingo, Setembro 20, 2009 [1:50 AMh]

Ordem no tribunal da vida


Gostaria de começar pedindo absolvições. Salvem Hitler. Salvem Collor. Salvem Fernandinho Beira-mar. Salve aquele seu vizinho, sim, aquele que manda o porteiro interfonar reclamando que você tá fazendo muito barulho. Salve a síndica que te obriga a secar o corredor que você inundou e ainda te ameaça com multas. Vamos hoje salvar e absolver todo mundo.

Eu tenho uma profunda dificuldade de sentir raiva das pessoas. Não tenho raiva de ninguém, fato. Por isso sou tão indiferente. Não deixo de falar com quem erra. Não trato mal quem, por vezes, me trata mal. Eu poderia ser taxado de ingênuo, se eu não tivesse a malícia pra analisar as coisas e agisse dessa forma conscientemente por conta de um fator, que para mim, é lógico.



O problema é simples. Ok, Fulano não presta, mal caráter, mentiroso, desonesto etc. Certo, concordo. Você já parou para pensar nos motivos que levaram ele a ser assim? Qual criação ele teve? Em que tipo de cultura ele esteve inserido na infância? Quais foram os seus traumas? O que eu quero dizer é que, a longo prazo, ele não tem culpa. Ele é vítima de fatores sociais. É fácil julgar e aplicar sentenças negativas. A síndica me julgou e quis aplicar sentenças negativas em mim, por eu ter inundado o corredor do prédio, sem antes procurar saber que a culpa tinha sido na máquina de lavar que deu defeito. Entendem a lógica?

Ah, então a culpa é do pai de Fulano que o criou dessa forma. E você sabe qual foi a criação que o pai de Fulano teve? É uma lógica que deveria ser vista pela ótica otimista de que somos todos inocentes, mas se torna meio desesperadora a partir do momento em que, peraí então, ninguém tem culpa de nada? E todas essas prisões? Todas as sentenças de morte? Todos os processos, chicotadas, chibatadas. Vamos abolir tudo isso?

Não tenho pretensão o suficiente pra dizer que essa é a lógica certa a ser seguida. Mas, até infelizmente, eu costumo analisar as coisas de um ângulo muito maior. Viro uma "terceira pessoa", como diz meu amigo Paulo. Abstraio as situações, busco os históricos, os porquês, tudo em poucos instantes. E essa é a lógica que sempre me bate à porta e eu não deixo de atender.

No final, tudo termina naquela história. Somos todos humanos e estamos no mesmo barco. Amplie a visão, veja o planeta da ótica do universo. Um bando de formigas caminhando por uma bola. Um monte de flores defeituosas num jardim sem nutrientes. E então, a culpa é de quem mesmo?





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Sábado, Setembro 12, 2009 [8:20 PMh]

E viva a incapacidade humana!



As coisas acontecem. É o mundo, sabe? O Sol nasce, o homem do leite chega cedo, o trem passa. As coisas seguem. E isso independe da nossa vontade. Isso independe do nosso querer intervir ou não.

Eu sempre gritei em alto e bom som: "Intervamos! Mudemos o mundo! Transformemos a realidade! Só depende de nós!". Mentira? Não, longe disso. Mas ando me questionando sobre o tamanho do mundo e a profundidade do universo, e sobre a nossa real capacidade de intervir, de mudar, de impor a nossa vontade. Podemos mudar a roupa, o estilo, o governo. Mas a natureza, essa ninguém muda.

E então, eu penso mais e chego a conclusão de que nossa incapacidade de mudar a natureza tem o seu valor. Sim, somos incapazes, e ainda bem que somos! Somos receptores passivos diante de um mundo que caiu sobre nossas cabeças. Somos espectadores diante do magnífico. Fomos poupados da responsabilidade de se administrar a essência do que existe.

Tendo em vista tudo isso, eu me pergunto, pra que tanta pressa? Pra que apressar a chegada, a partida, o encontro? Por que não esperar para que as coisas simplesmente aconteçam?

Não intervir, esperando acontecer, tem a desvantagem da demora e até do possível não acontecimento, mas pra mim vale o risco, quando se é compensado pela beleza de se ver as coisas acontecendo naturalmente.

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OBS: Já me arrependi de ter voltado pro blogger da globo. Tá dando problema com os acentos pra quem visualiza no Firefox. Vai ser o jeito eu voltar pro blogspot. Tsc.





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Quinta-feira, Setembro 10, 2009 [4:35 AMh]

Limão e gelo?

A velha história: a vida é feita de escolhas. Isso com certeza tá mais batido que vitamina de banana. Mas, se você parar pra pensar na complexidade desse fato, você fica louco.

Normalmente quem lê ou escuta essa frase mais superficialmente interpreta essas escolhas de um modo mais geral. O vestibular que você vai fazer, a carreira que vai seguir, ir ou não à festa do Zé, e outros acontecimentos mais "marcantes". Só que, puta que o pariu, essas escolhas estão ocorrendo a todo segundo e determinando todo o resto da nossa vida.

É mais ou menos assim: você está com sede, mas vai esperar acabar o texto pra ir tomar água. Talvez se você fosse tomar água agora, encontraria uma lagartixa no seu copo e, com o susto, bateria a cabeça na pia. Seria levado ao hospital, onde conheceria a enfermeira, que por sinal é amiga do Zé e também está indo à festa, marcariam de ir juntos e se casariam depois. Se de fato esperar, a lagartixa já terá ido embora e adeus enfermeira.

Digamos que a cada minuto nós tenhamos que escolher entre duas opções banais. Por exemplo, no primeiro minuto escolhemos o suco de umbu em vez do de acerola. No segundo minuto escolhemos com leite, em vez de com água, e por aí vai. Levando em conta que cada decisão leva a consequências próprias, no décimo minuto nossa vida poderia ter seguido de 1024 maneiras diferentes, pensando exponencialmente. Como ficar tranquilo com isso? Como saber pra onde a gente tá indo depois de cada decisão?

O mais desesperador é que, vez ou outra, entramos no glorioso piloto automático. Aqueles momentos em que você vai vivendo tipo uma formiguinha operária caminhando em prol da sociedade, sem pensar no que tá fazendo. Aí é que é foda mesmo. Depois de meia hora você "acorda" e aí já era, as decisões foram tomadas e sua vida poderia ter seguido de 1073741824 maneiras diferentes! Se você acha exagero uma decisão por minuto, que seja! Trabalhe com a idéia de uma decisão por dia, é desesperador do mesmo jeito.

A vida é feita, sim, de mais escolhas do que você pode imaginar. E, em uma vida, quantas vidas poderíamos ter vivido? Faça as contas e enlouqueça.

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Texto meu do dia 10 de fevereiro de 1009. Fica aí pra não deixar o blog sem posts, enquanto não começo a pensar os novos.





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